sábado, 8 de dezembro de 2007

Porque não sou compatibilista

Há muitas razões porque não sou compatibilista. Nos próximos meses vou falar aqui dessas razões. Hoje começo por fazer uma apresentação breve de uma velha intuição sobre o que está mal com o compatibilismo.

Intuitivamente, se a um indivíduo não lhe está aberto um dado caminho de acção, por que lhe é vedado pelo poder do estado, porque forças físicas maiores o impedem, ou porque está possuído de certas compulsões psíquicas que o forçam, então, não parece muito razoável dizer que agiu erradamente quando achamos que esse seria o caminho moral – afinal ele não poderia fazer tal.
O modelo de liberdade que está subjacente ao principio de possibilidades alternativas é aquele no qual o agente tem ao seu dispor um leque de possibilidades de acção e tem controle sobre, de entre estas possibilidades, qual delas toma como sua.

A discussão entre o compatibilista e o incompatibilista centra-se, de forma decisiva, na questão de saber exactamente como se deve compreender a possibilidade de fazer de outro modo, isto é, como entender esta noção de controlo. O compatibilista, como o nome o diz, acha que a liberdade e a responsabilidade moral é compatível com o determinismo, enquanto o incompatibilista acha que estes conceitos essenciais para uma vida humana, se perdem num mundo determinista.
O problema para o incompatibilista é que o determinismo apresenta um mundo no qual nos é apresentado apenas um caminho pela frente. Um mundo, recordemos, é determinista se e só se, o estado do mundo num dado momento particular da história desse mundo fixa o estado do mundo em todos os momentos subsequentes, de acordo com as leis da natureza. Posto isto só há um estado possível das coisas, em cada instante. Um pouco como um comboio que percorre uma linha na qual nunca há bifurcações. O incompatibilista, questiona então como é que podemos ser responsáveis pelo que fazemos se não temos qualquer controle sobre o que fazemos. Afinal, uma vez estando numa dada linha da vida, tudo o que acontece, não poderia deixar de acontecer, pois o determinismo significa que em nenhuma altura nos deparamos, na linha onde a nossa vida se desenrola, com uma bifurcação. E portanto perdemos a liberdade subjacente ao princípio de possibilidades alternativas, pois não temos controlo sobre as várias possibilidades de acção visto que simplesmente não há mais de que um caminho a seguir. Assim, parece plausível pensar, não há qualquer controlo a exercer.
Portanto, para o incompatibilista não há responsabilidade moral num mundo determinado, visto que é pelo exercício deste controle que somos responsáveis.

O compatibilista, por sua vez, acusa o incompatibilista de analisar erradamente, e portanto ter uma concepção desadequada, do que é ter controle sobre os nossos actos. Este diz que a possibilidade de agir de outro modo deve ser analisada condicionalmente. Deste modo: Se nós tivéssemos desejado fazer algo diferente do que fizemos então teríamos feito algo diferente. O que importa para termos controle sobre a nossa vida é que possamos fazer o que queremos fazer. O compatibilista, tradicionalmente, defende a noção de controlo em discussão, mas dá-lhe uma interpretação própria. Na medida em que os desejos e a vontade do agente fossem diferentes do que são o agente teria agido de modo diferente e portanto seguido caminhos de vida diferentes. Assim, não só temos várias possibilidades de acção, como elas parecem estar sobre o controlo do agente, visto que dependem da vontade do agente.
E porque podemos fazer de outro modo, mesmo num mundo determinista, o compatibilista acha que somos por vezes responsáveis pelo que fazemos.

Esta análise condicional de possibilidades alternativas tem sido muito influente, mas não convenceu até estes dias o incompatibilista. Este acha, tal como o autor destas linhas, que o compatibilista não vai ao fundo da questão, e tenta através de um artifício técnico ultrapassar uma dificuldade de fundo na sua posição. A intuição do incompatibilista é a de que não faz sentido dizer que poderíamos desejar outra coisa visto que tal não é compatível com uma linha da vida sem bifurcações. Se desejamos A, então não faz sentido dizer que poderíamos desejar B, dado que na linha da vida onde estamos somos a pessoa que desejamos A e não B. Isto é, dada a historia pessoal até aqui, não é possível ter outros desejos daqueles que temos se o determinismo é verdadeiro. Dada a linha da vida onde estamos, num mundo determinista, não faz sentido dizer que poderíamos fazer de outro modo, pois tal significa que teríamos de ter desejos diferentes, e isso significava que teríamos de estar noutra linha da vida, como se pudéssemos saltar de uma linha de comboio sem bifurcações para outra, para que possamos chegar a um destino diferente, mas que partiu de uma estação que não a nossa.

O compatibilista, olha para a possibilidade do determinismo, mede-lhe as consequências, e encolhendo os ombros como “bom naturalista”, aceita-as. A análise condicional da possibilidade de agir de outro modo mais não é do que isto : Raskolnikov é responsável por matar a velha rica. Matou-a por que quis. Meditou longamente no assunto e a sua vontade de dinheiro e sonhos de independência, aliado à falta de humildade levou-o a fazer o que fez. E o que fez reflecte a sua personalidade, quem ele é. Ninguém o forçou a tal. Se Raskolnikov tivesse um carácter diferente, se pensasse diferentemente, se desse devido valor à vida da velha e não sobrevalorizasse a sua, então, não teria assassinado a velha. Para não ter assassinado a velha bastaria tão-somente isso – não ter decidido faze-lo – visto que ninguém o forçou.
Mas agora note-se o que significa poder decidir diferentemente. Significa ter desejos outros, personalidade outra, várias crenças outras etc. mas tal só é possível se Raskolnikov estivesse noutra linha da vida. Se, deixando os seus genes constantes, tivesse tido uma experiência de vida que o levasse a alterar ou a nunca ter tido o tipo de pensamentos que teve naquele fatídico dia de sangue. Ou a nunca, por exemplo, ter tido conhecimento da existência da velha. Mas, dado o determinismo tal significa, que toda a história do mundo teria de ser outra. Outra forma diferente de se poder chegar a uma escolha distinta seria se Raskolnikov tivesse tido genes diferentes. Mas o significado é o mesmo – a história causal do mundo teria de ser toda uma outra desde o início do tempo.

Podemos então ver o que significa poder fazer de outro modo para o compatibilista: Raskolnikov é responsável pelo que fez pois poderia não ter matado a velha, afinal se o Big Bang tivesse sido ligeiramente diferente, ele não a teria morto! Ora aí está uma forma de ancorar as nossas intuições morais!

Um dia destes vemos a inquisição espanhola mandar prender o Big Bang.

Miguel Amen

4 comentários:

Cris disse...

Olá, cumprimento-lhe pelo seu excelente blog!
Apenas gostaría de tecer um comentário. O que compatibilistas dirão é que a noção de liberdade incompatibilista é que está equivocada. Incompatibilistas, não são apenas os deterministas, mas também libertaristas. A noção de liberdade destes últimos está atrelada à idéia de que determinação causal implica ausência de liberdade. A diferença é que p/ os primeiros a determinação causal e necessária e suficiente. Para os defensores do libertarismo, a determinção é necessária, mas nem semrpe suficiente, o que guarda um lugar para a liberdade. Compatibilistas por sua vez, dirão que há a liberdade quando há ausência de restrições e coerção, tanto ao nível mental, como ao físico. Não trata-se de dar de ombros, uma vez que compatibilistas estão apenas a rejeitar a noção incompatibilista do que é não ser livre. Tomemos a a famosa objeção incompatibilista expressada pela seguinte sentença: "eu poderia ter escolhido de outro modo". Compatibilistas entendem que nesta afirmação não queremos dizer " eu poderia ter escolhido de outro modo todas as condições antecedentes permanecendo as mesmas", como esperam os incompatibilistas. A sugestão dada é que se considere que a sentença, na verdade informa: "eu poderia ter agido de outro modo se as minhas condições internas relacionadas à minha decisão tivessem sido algo diversas". Perceba que o determinismo aqui permanece a salvo, mas que o agente não sendo coagido ou restringido, preserva o controle pela a sua ação, podendo-se, portanto, afirmar que ele está apto a agir de um modo diferente ao que agiria.
cordialmente

Miguel Amen disse...

Caro Cris,

O que diz parece-me certo. Uma ressalva terminológica e uma nota sobre o libertista. Um determinista, tal como o entendo é alguém que afirma que o determinismo é verdadeiro. É uma tese metafísica sobre o mundo. Ora um incompatibilista tal como um compatibilista pode acreditar nesta tese. Este incompatibilista seria então um determinista radical. Aproveito e deixo uma entrada terminológica no blog, sobre como uso estes termos.

Sobre o libertismo. Dado que sou um incompatibilista e gostaria de acreditar no livre-arbítrio gostaria de ser um libertista. O meu trabalho actual consiste na tentativa de formular uma posição adequada que vá nesse sentido. Confesso que estou céptico. Mas o que me ocorre é que a formulação que faz sobre o libertista é demasiado forte. O libertismo é a afirmação do livre-arbítrio e do incompatibilismo. E aqui há espaço para a formulação de uma teoria libertista na qual não haja necessidade de determinação causal. A plausibilidade desta formulação já é outra coisa...

Abraços,
Miguel

GUST99 disse...

Àcerca daquilo que o cris diz ao comparar as duas interpretações à frase "eu poderia ter escolhido de outro modo" -1º- "eu poderia ter escolhido de outro modo todas as condições antecedentes permanecendo as mesmas" e 2º-"eu ... se as minhas condições internas relacionadas à minha decisão tivessem sido algo diversas" gostaria de dizer o seguinte:
A acção foi tomada poque a pessoa formou a sua vontade com base nas condições internas presentes na altura do acto .
Se as condições internas fossem outras ,a sua vontade seria diversa bem como a acção que dai adviria .
Simplesmente estariamos a falar de pessoas diferentes pois não é possivel num dado momento uma pessoa ter duas condições internas diferentes .A posteriori todos podemos imaginar possiveis condições internas diferentes .Na altura de agir haverá uma única acção possivel decorrente da condição interna do agente .
Esta condição traduze-se por um algoritmo especifico do agente que face às diversas alternativas conscientes e não conscientes que se lhe colocam , produz o tal resultado ùnico .A chamada responsabilidade moral do agente não tem nada a ver com estes considerandos . O que se passa , è que a pertença de qualquer pessoa a uma sociedade implica tácitamente o assinar de um contrato onde constam as regras de conduta que incluem as regras para quem quebra as regras .
O juiz , o órgão social que zela pela aplicação das regras ,apenas delibera responsabilizando moralmente o agente por quebra de contrato .Esta situação não tem nada a ver com o facto de efectivamente a pessoa só ter a possibilidade de fazer aquilo que fez .Como muito bem referiu o Miguel,o Rascolnikov é um óptimo exemplo .Dostoiwevsky mostra duma forma magistral a condição humana.
O homem efectivamente , não age como quer mas sim como pode e pode aquilo que todas as suas experiências aumuladas até ao momento de agir o determinam a agir .
Desejo-lhes que tenham boas experiências .

Cris disse...

Sim, concordo em parte com o que Gust99 fala.Entretanto,seria pertinente tornar claro alguns pontos acerca do que escrevi. Pela visão compatibilista, podemos dizer que aquilo que permite o uso da frase "eu poderia ter feito, decidido ou agido de outro modo", é o fato de que usualmente, a mudança nas condições causais relacionadas às diferentes decisões, está dentro do alcance ou sob o controle da vontade do agente. Além disso, estas mudanças devem ser internas pelo menos em sua origem e pequenas o bastante para depender da aquisição de informação ou de treinamento conscientemente adquirido. Essa idéia nos permite a afirmação do primeiro comentário acerca da frase em questão (de que poderia ter agido...).Nesse caso,e assumindo-se a paráfrase, a ação apenas seria diferente se a totalidade das circunstâncias do mundo precedendo a decisão ou a ação, na ocasião, tivesse sido algo diferente. O que significa igualemente, que a totalidade que determina as condições do mundo em To tbm precisaria ser diferente.Contudo, não seria diferente no sentido de representar uma alteração no passado por parte do agente e sim de sugerir que, se o agente tivesse um presente diferente, então ele teria tido um passado diferente. O que é trivial, eu sei, mas plenamente aceitável. E a esse argumento, cabe apenas a existência do agente em questão (ver o argumento de Inwagen), querr dizer, não precisamos afirmar que falamos de agentes diferentes. Quanto ao problema da responsabilidade moral, tentarei colocar alguma observação aqui posteriormente, pois infelizmente agora falta-me o tempo necessário para tal abordagem.
Um grande abrç a todos.