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terça-feira, 1 de julho de 2008

Sobre a Unidade das Ciências

Há um velho sonho positivista de um estado futuro em que todas as ciências — da astronomia à psicologia, passando pela química, biologia, sociologia, economia... enfim: as ciências especiais — acabariam por ver, mais cedo ou mais tarde, o seu vocabulário expresso e definido em termos do vocabulário da física fundamental. Há a física e depois há coleccionadores de selos.

Contudo, este sonho positivista mistura duas teses. Uma delas, a tese metafísica, é plausível, ao passo que a outra, a tese epistemológica, o é muito menos. Parece plausível que, de facto, tudo seja físico, na medida em que todos os objectos parecem ser ou objectos postulados pela física fundamental ou constituídos por objectos desse género, em aglomerados cada vez mais complexos. Esta tese metafísica parece ser aceite nas ciências e faz parte da filosofia naturalista que encontramos, por exemplo, na filosofia da mente dos nossos dias — o postulado que afirma: “na minha filosofia não há matéria fantasmagórica”.

A tese epistemológica, que afirma que todo o conhecimento científico é essencialmente conhecimento em física fundamental, parece muito menos plausível. Assim, uma lei psicológica como esta: “as pessoas evitam, em geral, ser expostas a choques eléctricos”, teria a sua expressão última e acabada em termos do vocabulário da física fundamental, assumindo a forma de uma lei física, e seria assim mais uma expressão de uma regularidade do mundo a não escapar ao alcance explicativo universal da física.

A possibilidade de realização múltipla de certas propriedades das ciências especiais e a consequente classificação entrecruzada das taxonomias das diferentes ciências mostra com particular clareza os problemas subjacentes ao sonho positivista.
Pode ser que toda a minha constituição seja, sem excepção, devidamente física. Isto, contudo, não implica que as propriedades psicológicas indutivas que permitem a formulação de teorias psicológicas acerca de mim e de outros seres humanos tenham expressão em termos de propriedades físicas. Isto porque, do ponto de vista físico, pode simplesmente não haver seja o que for em comum entre várias exemplificações desta lei psicológica em diferentes agentes cognitivos. Basta para isso que as propriedades mentais sejam multiplamente realizáveis.
Para o positivista só haveria essencialmente uma forma de explicação (causal): a explicação física; porquanto todas as outras se reduziriam a esta. Mas como acabámos de ver, se for verdade que a taxonomia das várias ciências se entrecruza entre elas e com a física, a verdade da tese metafísica não significa que todas as explicações sejam explicações físicas. Não sei se isto é verdade ou não. Sabemos, contudo, que não se pode misturar a tese metafísica com a tese epistemológica, como fez o positivista, sem incorrer em erros e incompreensões.

Onde ficamos com isto? A meu ver, perante um difícil problema filosófico: o de compreender a relação entre as ciências especiais e a física. Porque se por um lado temos razões plausíveis para questionar o modelo positivista, por outro não passamos a ter menos perplexidades. Queremos que entre as ciências especiais e a física haja uma relação tal que: 1) seja compatível com a irredutibilidade das primeiras, 2) forneça um modelo do seu poder causal, na medida em que supomos que as explicações dadas pelas ciências especiais são explicações causais genuínas, independentes das que são dadas pela física. Não é tarefa fácil. Na verdade, penso que não se pode resolver o problema nestes termos. Mas deixo-o para outro dia.

Miguel Amen

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Causalidade mental e a metafísica da causalidade

O problema da causalidade mental pode e deve ser entendido como o de encontrar uma teoria metafísica da relação entre a mente e o corpo que respeite as intuições cartesianas de distinção, mas onde ainda tenha lugar a ideia de que os nossos estados mentais causem estados físicos, para que não se perca uma visão robusta de agência. Mas é fácil ver que uma certa compreensão específica de causalidade é operante nos argumentos que procuram mostrar que há dificuldades para a causalidade mental. Vejamos dois exemplos proeminentes na literatura.

O problema para Descartes, como já falei numa entrada anterior, era o de explicar como é que propriedades de uma substância sem expressão espacial poderia causar coisas no mundo físico, caracterizadas de forma necessária pela sua dimensão espacial. O problema é especialmente vívido para Descartes devido à sua concepção de causalidade – para que A cause B, A tem de entrar em contacto físico com B. Mas visto que o mental não tem expressão espacial, a ontologia cartesiana não consegue dar resposta ao problema.

A teoria da mente de Davidson, o monismo anómalo, não sofre, é certo, na explicação de uma certa forma de causalidade mental, visto que há uma identificação entre acontecimentos mentais e físicos. E não há dúvidas quanto há eficácia deste tipo de acontecimentos. Contudo Davidson pensa que a relação causal tem de ser fundamentada por leis estritas, leis estas que existem na física, mas não envolvem propriedades psicológicas – de acordo com Davidson não há leis psicofísicas ou psicológicas estritas.
Mas assim as propriedades mentais não têm qualquer papel na estrutura causal dos acontecimentos. Esta estrutura depende, de acordo com esta concepção de causalidade, das leis físicas e do tipo de propriedades físicas que os acontecimentos instanciam. É em virtude das propriedades físicas que os acontecimentos possuem, que estes entram nas relações causais que entram. Mas a irrelevância causal das propriedades mentais não é um mal menor. Quando agimos, quando alteramos as coisas à nossa volta, agimos de acordo com propriedades intencionais – abrimos a janela porque queremos ar fresco, levantamos o braço porque queremos falar, etc. Gostaríamos de dizer que é por causa do que queremos e desejamos que fazemos o que fazemos, mas de acordo com o monismo anómalo, o que fazemos parece acontecer devido às propriedades físicas dos acontecimentos.

Note-se quão semelhante os problemas são. Em ambos os casos temos uma concepção do mental e uma concepção da causalidade, e em ambos os casos a concepção da causalidade não é compatível com o mental. No caso do dualismo Cartesiano, onde a causalidade é entendida como contacto, não há, obviamente, lugar para substâncias sem dimensão espacial. Em Davidson, a causalidade requer leis estritas, mas nestas não há lugar para propriedades mentais.

Dado o problema, quais as soluções? O problema no seu essencial resume-se a isto: O mental é compreendido de certa forma, que é pela sua própria natureza incompatível com a noção de causalidade.

As estratégias são óbvias e ambas estão vivas na filosofia da mente contemporânea. Ou se concede que erramos e se modifica a noção de causalidade de modo a que seja compatível com o entendimento que temos do mental, ou se altera a concepção do mental, de modo a que seja compatível com a causalidade.

Desde Descartes, que a pressão reducionista, de tendências fisicalistas tem sido a força motriz na filosofia da mente. A ideia tem sido a de tornar menos diferente o mental, de modo a que a sua incongruência com o mundo físico seja menor, e assim arranjar um lugar para as propriedades intencionais, que responda as nossas intuições de relevância causal.
Mas esta estratégia não vem de graça e os preços a pagar devem ser claros. Na medida em que se fisicaliza o mental, e no limite, se identificam as propriedades mentais com as físicas, torna-se difícil de responder e encontrar lugar para as intuições de distinção que criaram o problema em primeiro lugar - questões de fenomenologia, normatividade, racionalidade, que parecem ancorarem o mental. E as dificuldades são muitas e graves. Corre-se o risco, seguindo esta estratégia, de salvar a causalidade mental à custa de eliminar o mental.

Por outro lado poderemos alterar a noção de causalidade. Ultimamente tem-se falado muito das teorias contrafactuais, seguindo David Lewis. O preço a pagar aqui é menos claro, mas poderá ser alto. A questão que se põe, e que não tem sido suficientemente discutida, é a de saber se todas as teorias causais são compatíveis com uma concepção de agência robusta. O problema da causalidade mental é importante porque parece ser uma condição necessária da agência. A meu ver para elucidar este problema é preciso compreender melhor as relações que a noção de agência tem com o problema da responsabilidade e do livre-arbítrio e em que medida esta compreensão nos pode iluminar um bocadinho na questão da teoria causal.

Para já fico por aqui, mas a minha impressão é a de que estes problemas colocam limites e condições na nossa concepção da causalidade no contexto do problema da causalidade mental. Voltarei a este problema mais tarde.