segunda-feira, 12 de maio de 2008

O que é isso de investigação em filosofia?

Esta não pertence ao tipo de questões que normalmente me coloque. Tal como o físico que, por exemplo, quer saber mais acerca dos buracos negros, assume com segurança que o valor e o saber epistémico de toda uma tradição que foi aprendendo ao longo dos anos são adequado à tarefa, também eu me vejo confiante na tradição que fui absorvendo ao longo dos anos, de ler, pensar, e escrever filosofia. Tendo sido formado na tradição filosófica anglo-saxónica, que valoriza fortemente o conhecimento, coloco as minhas energias na busca desse conhecimento, assumindo que os métodos, estratégias e modos de pensar que fui adquirindo nos anos de formação são adequados à tarefa. Isto é possível porque uma tradição sadia, que tenha como objectivo central o conhecimento, vai oferecer, prosaicamente, ao estudante que emule os seus melhores praticantes, métodos seguros de o fazer.

Num certo sentido, a pergunta quase parece trivial. Uma vez conhecendo a natureza da filosofia, que tipo de questões põe, e sendo que o objectivo de qualquer disciplina é o de alcançar teorias verdadeiras, então a questão de saber o que é isso de fazer investigação em filosofia parece não ser muito mais do que a questão de saber como justificar estas mesmas ideias e teorias.A minha universidade recentemente questionou-se acerca isto. A resposta que se segue é o resultado não só de olhar para dentro, para aquilo que me parece ser o que faço, mas também de pensar ser o que fazem todos aqueles que admiro em filosofia.

Fazer investigação em filosofia é como fazer investigação nas ciências, como a física, a biologia a psicologia ou a história. As ciências naturais, por exemplo, propõem soluções para problemas específicos, justificando-as sobretudo com base na experimentação. A filosofia faz o mesmo: propõe soluções para problemas, mas justificando-as agora com a argumentação.
Duas qualificações: primeiro, a elaboração do problema filosófico tem uma relação íntima com a história da filosofia, quase inexistente nas ciências naturais. Por vezes, contextualizar ou reformular a pergunta é já um feito considerável. Segundo: A justificação em filosofia, através da argumentação, é um campo vasto. Temos experiências mentais, apelo a intuições, apelo ao senso comum, à coerência com as ciências naturais, coerência interna, e por aí fora.

Claro que se temos uma concepção filológica ou poética da filosofia tudo isto parecerá estranho. Na primeira, o que interessa não são os problemas mas quem disse o quê, quando e onde e embora na segunda se pareça dar valor à pergunta, aparentemente o que interessa é a sua formulação pessoal, sugestiva e emotiva. Nesta concepção poética, o que interessa na pergunta é a própria perplexidade que produz e não a sua correcta formulação como um passo necessário para uma solução.

É evidente que se temos uma compreensão deficiente da filosofia vamos ter dificuldade a compreender o que é fazer investigação em filosofia. É evidente que se não temos uma concepção da filosofia que passe pela formulação de perguntas, iremos ter dificuldade em conceber como pode a filosofia propor teorias para as resolver. E é evidente que se não temos respeito pela pergunta não nos preocupa a veracidade das teorias propostas.

Mas se, como filósofos, temos verdadeiros problemas, inquietações filosóficas que pedem uma resposta, então compreende-se que não nos satisfaçamos com qualquer teoria. A veracidade desta é importante porque é importante saber se temos uma resposta à nossa inquietação ou um apaziguamento ilusório, como um sonho que acalma um desejo. Isto realça a importância, a inevitabilidade da justificação. Quando se leva a sério a pergunta, levar a sério a resposta significa esforçar-se por destrinçar a resposta ou teoria correcta de todas aquelas que não o são mas podem parecer sê-lo – E não há outro modo de o fazer, para nós, mamíferos imperfeitos, tão vulneráveis ao erro, do que através de razões e argumentos que as justifiquem e da caridade e interesse dos nossos companheiros em apontar os defeitos das nossas propostas, os nossos erros, e oferecer melhores razões e argumentos para as sustentar.

Só uma concepção religiosa do mundo, que feche os olhos às imperfeições da nossa origem biológica, pode achar que há outro modo de chegar à verdade. A ideia quase religiosa que muitas vezes se tem acerca de homens e mulheres de génio, supostamente acima da crítica, é um exemplo desta atitude. Enquanto não se interiorizar a nossa origem humilde na savana, não vamos provavelmente compreender com força e consequência a falta de qualquer privilégio epistémico enquanto humanos. Se algo de notável têm os chamados grandes génios do passado, não é decerto o serem escolhidos pelos deuses e ter-lhes sido ditadas as verdades a partir de cima. Mas sim o facto de oferecerem razões e argumentos que pareceram particularmente bons aos seus contemporâneos e sucessores. É por isso que os estudamos, para saber se as suas propostas são soluções adequadas e, se não, para não cometermos os mesmos erros.

Vale a pena reflectir neste ponto, pois realça a importância da história da filosofia para a sua compreensão e a importância que nela têm os grandes filósofos do passado. Estes filósofos são importantes mas não como curiosidades históricas, como pessoas que de facto viveram e pensaram em dada época, que publicaram certos livros e defenderam certas teses, mais ou menos aceites aqui e contestadas ali. Isto pode ser mais ou menos interessante como facto histórico e o historiador de ideias não deve deixar de o mencionar. Mas para o filósofo, enquanto filósofo, a importância destes pensadores advém da pertinência que têm para os problemas da filosofia. O modo como nos ajudam a compreender e a tentar oferecer soluções para os vários problemas filosóficos com que deparamos. É porque lê-los nos ajuda a compreender melhor certos problemas e a melhorar as nossas respostas a estes que os lemos com atenção. Para não cairmos nos mesmos erros em que eles caíram e para avançarmos um pouco mais. Assim, fazer investigação em filosofia pode passar por mostrar como o filosofo X ou Y iluminou a nossa concepção de um dado problema, como procuraram dar-lhe resposta, se essa resposta é ou não adequada e, se não o é, como podemos melhorá-la ou o que podemos reter do seu falhanço que nos permita, a nós agora, fazer um bocadinho melhor.

Miguel Amen

6 comentários:

Rolando Almeida disse...

Caro Miguel,
O seu texto é muito bom. É inteligente e mata alguns falsos mitos sobre a filosofia. Parabéns.
Abraço e bom trabalho
Rolando A

Miguel Amen disse...

Obrigado Rolando

Miguel

Vitor disse...

O curioso é o desespero com que quase todas as formas de pseudoconhecimento se querem reclamar da filosofia. Diríamos que a característica mais evidente da pseudofilosofia é que a pseudofilosofia preocupa-se fundamentalmente em passar por ser a "verdadeira" filosofia, ao passo que a filosofia genuína é talvez a que se preocupa menos com esse tipo de disputas. Não é necessário disputar isso pois já está na essência do que se faz. (Já viste um carpinteiro desesperado por mostrar ao mundo que é ele quem faz a "verdadeira" carpintaria? O trabalho dele fala por si). Contudo, os pseudos têm de engajar nestas discussões porque 1) para serem respeitados são forçados a escrever coisas ininteligíveis porque 2) nada têm para dizer realmente e 3) apesar desta ausencia de pensamento querem à força exprimir-se e ser reconhecidos por "deitarem cá para fora" as suas dores da alma todas... Para mal dos nossos pecados.

O problema é que os nossos departamentos de filosofia, que estão infestados de malabaristas heideggerianos e opus dei acham muita graça a estes meninos e como tal, não "podemos", como dizem os ingleses: "call a spade a spade" porque estamos a ser muito intolerantes, mas que coisa.

Como é que dizia o Almada mesmo a estes gajos? — basta pum basta!

anamagno disse...

aquilo a que chamas pseudofilosofia é muitas vezes uma necessidade desesperada de comunicar; chamar as coisas pelo nome também é filosofia; são tentativas que dão um sentido á vida e ao mundo que nos rodeia; se tiveres com quem falar das dores da alma é bom;

Miguel Amen disse...

Cara Ana,
Confesso que não sei bem que sejam dores de alma; parece algo que pulula na má poesia. Ocorre-me que será o tipo de coisas que terá a sua resposta no padre no psiquiatra ou talvez num amigo.
Mas se calhar a Ana esta a pensar no aconselhamento filosófico. Mas aí, o papel do aconselhador será também a elaboração problemas e respostas fundamentadas.
Imaginemos o caso do Pedro, que vai ter com João para aconselhamento filosófico. O Pedro está de tal modo indeciso acerca de que curso optar, se matemática ou filosofia, que está paralisado. O problema que o João tem pela frente é claro, ajudar o Pedro a tomar uma decisão. Para isso vai ter que saber mais sobre os interesses e prioridades do Pedro, o que provavelmente significa ajuda-lo a explicitar estes mesmos, através de alguma auto examinação e reflexão sobre quem é o Pedro e o que quer ser etc etc...E com base nestes dados chegarem a uma decisão.

Miguel Amen

RUI disse...

Caro Miguel,

Os meus parabéns por esta sua reflexão metafilosófica: clara, precisa e incisiva.
Partilho também a sua concepção da história da filosofia,e o meu trabalho actual na área segue exactamente esta linha condutora.
Parabéns de novo e um abraço do
Rui Daniel Cunha