O problema da causalidade mental surge de muitas formas, e em muitas teorias que explicam a relação entre a mente e o corpo. Historicamente começa com Descartes que foi o filósofo que iniciou o pensamento contemporâneo nestas matérias e que estabeleceu os termos que a discussão tomou desde então.
Vejamos brevemente o problema: O Dualismo Cartesiano diz-nos que a mente e a matéria são duas substâncias diferentes.
A mente, é uma substância não material, cujo atributo ou propriedade essencial é a consciência. Devemos entender isto como mantendo que algo que não possua a propriedade de ser consciente não pode ser uma mente. Por outro lado Descartes também entendia que a propriedade essencial de uma substância é uma propriedade que é necessária para qualquer outra propriedade que essa substância possa ter. Assim se uma mente possui uma crença, um desejo ou qualquer outro atributo mental, essa mente tem de estar consciente de possuir essa crença, esse desejo ou qualquer outro atributo mental. Se o Paulo pensa (tem a crença) que amanhã vai chover, então segundo Descartes a crença do Paulo tem a propriedade da consciência, pelo que se segue que o Paulo está consciente de ter tal crença. Dizer que qualquer propriedade mental tem a propriedade da consciência é o mesmo que dizer que qualquer propriedade mental é transparente à mente que possui a propriedade. O Paulo não só pensa que amanhã vai chover como sabe que pensa que amanha vai chover.
A matéria, por seu lado, caracteriza-se pela sua dimensão espacial. Ter dimensão espacial é segundo Descartes a propriedade essencial da matéria. Assim qualquer coisa material, além das propriedades acidentais, como ter uma dureza específica ou ter uma certa massa, tem a propriedade necessária de ocupar espaço ou como Descartes se exprimia, de se estender no espaço. Algo que não tenha dimensão espacial não pode consequentemente ser uma coisa material. Com o que foi dito até agora não se poderia inferir o dualismo pois não foi excluída a possibilidade de que uma propriedade que possua dimensão espacial também seja consciente. Mas Descartes rejeita tal possibilidade. Cada substância tem uma e uma só propriedade essencial. O que leva a uma bifurcação completa do mundo, pois não há então partilha de propriedades, visto que qualquer propriedade material possui a propriedade de se estender no espaço o que exclui a possibilidade de ser consciente e vice versa.
Esta ontologia bifurcada traz dificuldades quando consideramos seres como nós onde o mental e o material parecem coexistir. A questão que tem sido posta a Descartes ao longo dos anos é a de saber como é que algo mental pode interagir com algo físico, dado que são tão essencialmente diferentes.
Quando agimos, quando por exemplo decido alterar a intensidade da luz sobre a mesa, modificamos o mundo à nossa volta, devido aos desejos e crenças que possuímos. Assim algo mental tem de interagir com o mundo físico, para haver a possibilidade da acção. Na medida em que a agencia é importante para nossa concepção do que é ser-se humano, então o problema da causalidade mental é pertinente. Descartes era demasiado bom filósofo para negar a importância da interacção mente-corpo apesar da sua teoria não conseguir dar conta do facto.
Descarte legou-nos um mundo bifurcado; a mente é uma coisa, a matéria é outra, e são coisas, substâncias, fundamentalmente distintas. É verdade que hoje em dia não é uma dualidade de substâncias que cria problemas, dado que se pensa que só há um tipo de substância, o material ou físico. Como veremos, no essencial, este é um legado que persiste na filosofia contemporânea. Descartes legou-nos um problema que surge com esta visão bifurcada do mundo, o de saber exactamente como é que estas coisas assim tão diferentes podem interagir uma com a outra.
Desde então, Descartes é criticado por esta falha, e as teorias fisicalistas que estão em voga, foram avançadas como projectos que estariam isentos deste tipo de problemas.
Contudo, muitos filósofos acham que as propriedades mentais não são idênticas às propriedades físicas, e como veremos tais teorias estão sujeitas objecções do mesmo tipo que assolaram Descartes.
O fisicalismo não-redutivo, que não identifica as propriedades mentais com as físicas, ainda não respondeu adequadamente a este problema.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Causalidade Mental e Descartes
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Miguel Amen
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Etiquetas: Causalidade Mental, Descartes, Dualismo
Dois Problemas e uma Concepção do Desassossego Filosófico
Neste blog vou discutir dois temas repetidamente: o problema da causalidade mental e o problema do livre-arbítrio. Estes problemas têm, a meu ver, uma conexão natural no facto de ambos colocarem em causa uma concepção do mundo – aquela na qual há agentes.
De alguma forma o modo como vou abordar estas matérias vai reflectir uma certa concepção da filosofia. Não quero com isto dizer que todos os problemas filosóficos se possam assim expressar mas que os que mais me interessam têm uma tendência muito forte de surgir assim – são os que normalmente captam a minha imaginação.
Esta ideia da filosofia foi expressa por Wilfrid Sellars no artigo “PHILOSOPHY AND THE SCIENTIFIC IMAGE OF MAN” como a tentativa de conciliar duas imagens do mundo; a imagem manifesta e a imagem científica. A imagem manifesta apresenta o homem como essencialmente um agente, que devido à sua capacidade de deliberação é capaz de intervir no mundo. A imagem científica apresenta o homem como um sistema complexo físico, sujeito as leis naturais.
Assim, por exemplo, o problema do livre-arbítrio surge naturalmente quando reconhecemos que estas duas perspectivas, a que olha o homem essencialmente como agente e o vê de uma perspectiva pessoal, da primeira pessoa e a perspectiva científica da terceira pessoa, e onde ambas assumem uma concepção do homem num mar de acontecimentos, entram em conflito.
Duas características parecem centrais para a compreensão tradicional do livre-arbítrio, do ponto de vista da primeira pessoa:
a) Depende de nós como escolhemos (somos nós que escolhemos) de entre um leque de possibilidades alternativas.
b) A origem ou fonte das nossas escolhas e acções está em nós e não em qualquer outrem sobre o qual não temos controle.
Por outro lado, e contrastando, temos uma concepção da terceira pessoa, dada pela imagem cientifica que sugere que a interferência do mundo sobre nós é muito maior do que à partida, do ponto de vista da primeira pessoa, alguma vez imaginamos. Isto deve-se à possibilidade do determinismo, por exemplo, mas esta não é a única forma de elaborar este problema, apesar de ser talvez a que mais evidencia o contraste que quero tornar claro. Este diz-nos que um acontecimento (E) é determinado caso existam condições iniciais (por exemplo causas físicas antecedentes mais as leis da natureza) cuja ocorrência conjunta seja suficiente para a ocorrência do acontecimento (E). Assim, dado estas condições determinantes, é inevitável que (E) aconteça.
Assim, torna-se obvio o conflito; como podemos ser nós a escolher, se não há escolha possível? Se só há uma possibilidade real perante nós? Assim (a) acima parece tornar-se impossível de praticar. Por outro lado (b) também perde o sua força, pois parece que a perspectiva da terceira pessoa, coloca os acontecimento firmemente nas mãos de condições determinantes da acção, que não estão em nós – esta cadeia causal pode originar em fenómenos presentes antes do nascimento do homem.
É este tipo de conflito que é preciso resolver, e aí reside a motivação para muito do trabalho filosófico que se vai expor nestas páginas.
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Miguel Amen
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Etiquetas: Blog, Filosofia, Livre-arbítrio
sexta-feira, 23 de março de 2007
Porquê escrever um blog?
A revista ‘The Philosophers’ Magazine’ recentemente incluiu um artigo em que se aborda este tema, onde é citado o editor a dizer que
“Given that the world probably does not even need most of my more carefully worked out musings, it certainly doesn’t need my off-the-cuff ramblings. So, no, sorry. Blogging would waste my time and yours. Go read something I or someone else has put some prolonged thought into.”
É o tipo de ideias que até à pouco eu partilhava inteiramente, e motivo pelo qual raramente lia blogs ou levava a sério a ideia de escrever um. Parece-me que a maior parte do que se publica não merece o nosso tempo de leitura. As minhas ideias mudaram ao ler o seguinte no Blog de Brandon Watson, Siris
“I consider blogging to be a very informal type of publishing - like putting up thoughts on your door, with a note asking for comments, or like brainstorming sessions. Nothing in this weblog is done rigorously: it's a place for jottings and first impressions. Because I consider posts here to be 'literary seedings' rather than finished products, nothing here should be taken as if it were anything more than an attempt to rough out some basic thoughts on various issues. Learning to look at any topic philosophically requires, I think, jumping right in, even knowing that you might be making a fool of yourself; so that's what I do. My primary interest in most topics is the flow and structure of reasoning they involve rather than their actual conclusions, so most of my posts are about that. If, however, you find me making a clear factual error, let me know; blogging is a great way to get rid of misconceptions.”
Chamou-me a atenção especialmente a noção de que os posts são “literary seedings”. Foi esta ideia que me decidiu a avançar com o blog.
O que se vai encontrar aqui são pequenas notas de reflexão sobre os temas filosóficos que me ocupam no momento, com vista a compreende-los melhor. Muitas das ideias expressas serão meras tentativas, um momento de brainstorming. Mas a ideia é expressá-las claramente, sucintamente e sem tecnicismos. Mas mesmo que a maioria não dê em nada, talvez algumas floresçam. Não há outra maneira de fazer filosofia.
Claro que poderia escrever para uma pasta qualquer escondida num cantinho do computador; Mas não se pode negar o apelo e a utilidade (caso o leitor comente os posts ou me escreva por email) de ser lido.
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Miguel Amen
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sábado, 24 de fevereiro de 2007
Blog dedicado aos meus interesses filosóficos: Tópicos na filosofia da mente, filosofia da psicologia, metafísica e filosofia da ciência.
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Miguel Amen
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